Linguagem
Comum e Linguagem Científica
Autor:Ernest
Nagel
Adaptado
por Márcia Tomazzoni
1.
Uma característica notável de muitas das informações que
adquirimos através da experiência comum é que, embora elas possam
ser suficientemente precisas dentro de certos limites, raramente são
acompanhadas por qualquer explicação que nos diga por que se deram
os fatos alegados. Deste modo, as sociedades que descobriram os usos
da roda habitualmente nada sabiam sobre forças de fricção, nem
sobre as razões que fazem com que coisas colocadas em veículos com
rodas possam ser transportadas com mais facilidade do que sendo
arrastadas pelo chão. Muitas pessoas aprenderam que era aconselhável
adubar os seus campos agrícolas, mas poucas se preocuparam com as
razões para agir assim. As propriedades medicinais de plantas como a
dedaleira foram reconhecidas há séculos, embora habitualmente não
se tenha oferecido qualquer explicação das suas propriedades
benéficas. Além disso, quando o «senso comum» tenta dar
explicações para os seus fatos – como quando se explica o valor
da dedaleira como estimulante cardíaco através da semelhança entre
a forma da flor e a do coração humano – muitas vezes não há
testes da relevância das explicações para os fatos. [...]
2.
As crenças pré-científicas são frequentemente insuscetíveis de
testes experimentais definidos, simplesmente por serem compatíveis
de uma maneira vaga com uma classe indeterminada de fatos por
analisar. O artesão que trabalha com metais pode ficar satisfeito
por saber que o ferro é mais duro do que o chumbo, mas o físico que
quer explicar este fato tem de ter uma medida precisa da diferença
de dureza. Por isso a ciência tem por objetivo produzir explicações
que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de
dados factuais, organizando e classificando o conhecimento segundo
princípios explicativos. Na sua procura de explicações
sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da
linguagem comum, remodelando-a. […] Uma consequência óbvia, mas
importante, da precisão assim introduzida, é as proposições
poderem ser testadas pela experiência de uma maneira mais crítica e
cuidada. . […]
3.
Assim, o maior rigor da linguagem científica ajuda a esclarecer o
fato de muitas crenças do senso comum terem uma estabilidade que
poucas teorias científicas possuem. É mais difícil construir uma
teoria que, depois de confrontos repetidos com os resultados de
observações experimentais rigorosas, permaneça inabalada, quando
os critérios para o acordo que se deve obter entre esses dados
experimentais e as previsões extraídas da teoria são exigentes do
que quando esses critérios são vagos […].
Ernest
Nagel, A Estrutura da Ciência, 1961, trad. de Pedro Galvão, pp. 3-9
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