quarta-feira, 31 de outubro de 2012

2º ANO - COLÉGIO PIRATINI, TEXTO 1


Linguagem Comum e Linguagem Científica
Autor:Ernest Nagel
Adaptado por Márcia Tomazzoni

1. Uma característica notável de muitas das informações que adquirimos através da experiência comum é que, embora elas possam ser suficientemente precisas dentro de certos limites, raramente são acompanhadas por qualquer explicação que nos diga por que se deram os fatos alegados. Deste modo, as sociedades que descobriram os usos da roda habitualmente nada sabiam sobre forças de fricção, nem sobre as razões que fazem com que coisas colocadas em veículos com rodas possam ser transportadas com mais facilidade do que sendo arrastadas pelo chão. Muitas pessoas aprenderam que era aconselhável adubar os seus campos agrícolas, mas poucas se preocuparam com as razões para agir assim. As propriedades medicinais de plantas como a dedaleira foram reconhecidas há séculos, embora habitualmente não se tenha oferecido qualquer explicação das suas propriedades benéficas. Além disso, quando o «senso comum» tenta dar explicações para os seus fatos – como quando se explica o valor da dedaleira como estimulante cardíaco através da semelhança entre a forma da flor e a do coração humano – muitas vezes não há testes da relevância das explicações para os fatos. [...]
2. As crenças pré-científicas são frequentemente insuscetíveis de testes experimentais definidos, simplesmente por serem compatíveis de uma maneira vaga com uma classe indeterminada de fatos por analisar. O artesão que trabalha com metais pode ficar satisfeito por saber que o ferro é mais duro do que o chumbo, mas o físico que quer explicar este fato tem de ter uma medida precisa da diferença de dureza. Por isso a ciência tem por objetivo produzir explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de dados factuais, organizando e classificando o conhecimento segundo princípios explicativos. Na sua procura de explicações sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da linguagem comum, remodelando-a. […] Uma consequência óbvia, mas importante, da precisão assim introduzida, é as proposições poderem ser testadas pela experiência de uma maneira mais crítica e cuidada. . […]
3. Assim, o maior rigor da linguagem científica ajuda a esclarecer o fato de muitas crenças do senso comum terem uma estabilidade que poucas teorias científicas possuem. É mais difícil construir uma teoria que, depois de confrontos repetidos com os resultados de observações experimentais rigorosas, permaneça inabalada, quando os critérios para o acordo que se deve obter entre esses dados experimentais e as previsões extraídas da teoria são exigentes do que quando esses critérios são vagos […].

Ernest Nagel, A Estrutura da Ciência, 1961, trad. de Pedro Galvão, pp. 3-9

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